Cultura da Favela é Cidade

Jorge Barbosa
(jorge@observatoriodefavelas.org.br)

As favelas são solos férteis para criação cultural. O samba, a capoeira, o choro combinaram a dança e a música na gestualidade estética carioca. O funk, o hip-hop, o break e o forró atualizaram as marcas do mundo vivido de seus moradores. A pintura, o grafite, a fotografia e o vídeo retraduzem pertencimentos à cidade.

A favela faz florescer a cultura no Rio de Janeiro. Nos seus becos, vielas e pequenas praças estão os diferentes encontros que formam um tecido denso de sociabilidade, de religiosidade, de humanidade. É a mistura de arte com a vida que vai faz a esperança cotidiana ser chamada de cultura.

Por isso, e muito mais, que a favela é um território de experimentações, de singelezas e de desafios. Olhando de longe não identificamos os equipamentos culturais monumentais. Não há prédios grandiosos, e até mesmo mais simples não ilustram a paisagem. Mas quando nos aproximamos fica em relevo a pluralidade de invenções e de práticas que dão significado à existência humana.

Na calçada as crianças retomam criativamente brincadeiras dos seus pais e avós. N’outra esquina sentimos os sabores da comida nordestina. Mais adiante dispara o sonoro aroma da feijoada com pagode. Enquanto motoboys circulam sem parar, e os santos de fé figuram nas fachadas. Lan houses se avizinham das barracas de camelôs e das biroscas.
Celulares, ipads, televisão cabo. Búzios, telegramas do amor, rádios de pilha. São encruzilhadas da velocidade com o tempo lento. O consumo urbano adentra pela favela, seduz e é seduzido. É inventado um novo jogo. Jogo onde nos localizamos – e nos perdemos – no mapa de significações. Geografia de nós mesmos com outros diferentes, chamada cidade.

A cultura é patrimônio materialmente inscrito. Mas é também conhecimento de nós mesmos. Um sentido de pertencer a algo que nos pertence: o território. Uma morada virtual (no sentido de vida) que nos faz ser/estar como a expressão diferenciada de significados. É no território que a cultura realiza as possibilidades de sua apropriação como conceito e de sua visibilidade como prática social. Podemos habitar a cidade compartilhando experiências / territórios de sociabilidades fraternas? A favela te convida: passa lá em casa.

A cultura é o habitar em uma obra inconclusa, sobretudo porque a criação cultural é um ato de trocas simbólicas, corpóreas e materiais entre os seres humanos. Assim, criamos vínculos e interpretamos nossa presença na sociedade. Porém, a cultura nos permite interrogar nossa posição, nosso lugar, nossa existência. A cultura está imersa em nossas práticas e condutas sociais. Daí a centralidade política da cultura para a construção de um projeto transformador da cidade contemporânea.

Precisamos viver a cultura de modo mais rico, intenso e plural para sermos capazes de inventar o futuro. Por isso renovamos o convite: habite os solos culturais das favelas.


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