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Deixa a criançada brincar: a importância de crianças de favelas e periferias vivenciarem a infância

Matéria: Gabrielle Araujo (gabrielle@observatoriodefavelas.org.br)
Peça gráfica: Taiane Brito (taiane@observatoriodefavelas.org.br)

Na semana do Dia das Crianças, evidenciamos o valor social que viver uma infância saudável proporciona para a rotina de crianças de territórios periféricos

Pique-esconde, amarelinha, pipa, correr, cair e se ralar. A infância é uma das fases mais importantes da vida, pois é nesse momento que se inicia a compreensão do mundo, o desenvolvimento social e afetivo das crianças. Compreendido do período que vai do nascimento aos 6 anos de vida, a primeira infância é um período crucial para o desenvolvimento neurológico da criança e isso é diretamente influenciado pelos estímulos e contexto ao qual ela está inserida. Por isso, é importante que a criança tenha uma infância saudável e que gere condições positivas para o seu futuro.

Em favelas e periferias, muito se vê o cenário de pipas colorindo o céu ou os banhos nas piscinas de plástico espalhadas pelas ruas do território. Elementos assim configuram-se como um fator importante para caracterizar a pluralidade de interações sociais, convivência comunitária e acesso à cultura e lazer – pontos que integram o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) como prioritárias para a promoção e proteção das crianças.

Para a educadora, pesquisadora e coordenadora do Programa Educativo do Galpão Bela Maré, Érika Lemos Pereira, a existência de espaços em favelas e periferias que propõem a participação de crianças em atividades que combinem o acesso ao conhecimento e o brincar é essencial. “Considerando que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) compreende como um direito o ato de ‘brincar, praticar esportes e divertir-se’, sabemos que por outro lado, crianças e adolescentes de territórios favelados e periféricos são lidas de maneiras diferentes pelo Estado e pela Sociedade em geral. Nesse sentido, espaços como o Galpão Bela Maré que organizam atividades infantis e juvenis estão clamando para que todas as crianças tenham os mesmos acessos ao direito de brincar. Por sua vez, o Programa Educativo busca criar e oferecer aos públicos infantis e juvenis brincadeiras que atribuem conhecimento sobre arte, cultura, patrimônio entre outros saberes e fazeres, no âmbito da educação não-formal”, afirma.

O Galpão Bela Maré é um espaço localizado na favela da Nova Holanda, na Maré, e funciona como articulação de um dos eixos do Observatório de Favelas, o Arte e o Território. Como se autodefine, O Bela está “voltado para a ressignificação e reinvenção das práticas sociais e das formas como as favelas são representadas e reconhecidas”. E nesse contexto, diferentes atividades de integração, formação e lazer para as crianças rondam a grade de programação. “Nós nos orgulhamos de ter como um dos nossos segmentos de públicos mais tradicionais as crianças e adolescentes do território da Maré.

Para Érika Lemos Pereira, promover a multiplicidade de experiências na formação de crianças e adolescentes, de favelas e periferias é fundamental.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesse sentido, a grande maioria da programação regular é direcionada a elas. Alguns exemplos são: Espaço de Leitura Contação, Espaço de Leitura Indica, Ação Poética, Bela em Movimento, CineBela, Oficinas de Verão e Visita Mediada. Inclui também as atividades de Mobilização (Agendamentos de grupos, Mobilização por e-mail, Mobilização por whatsapp e Mobilização Territorial). Essa constelação de atividades são, na maioria das vezes, pensadas para a fruição de crianças, adolescentes e suas famílias com temáticas livres e com linguagem simples. Cabe destacar que no mês de Outubro, celebrando a alegria do Dia das Crianças, toda a programação elaborada pelo Programa Educativo mobiliza atividades feitas com as crianças, para as crianças e sobre as crianças. São as/os pequeninas/os que tanto movimentam e inspiram o nosso trabalho”, explica Érika.

Além das atividades lúdicas e educativas, outros pontos principais na garantia dos direitos fundamentais das crianças são a convivência familiar e a promoção de um espaço e ambiente que proporcionem o bem-estar e o exercício da criatividade dos pequenos. Para Sara Silva, moradora da favela da Coréia, em Mesquita, e mãe da Myrella, de 3 anos, esses elementos são indissociáveis. “Para mim isso é muito importante para que ela possa saber lidar com outra criança e conhecer outras brincadeiras também. Por exemplo, ela gosta muito de brincar na rua de pique-pega e panelinha”, acrescenta. Mas Sara é categórica ao afirmar que é preciso que o governo invista nas estruturas para as crianças brincarem livremente. “Até deixo ela brincar na rua, mas com um pouco de medo. Muita coisa poderia melhorar, principalmente a segurança. Precisamos de mais pracinhas e escolas”, elucida a mãe de Myrella.

Para Sara Silva, o direito a uma infância saudável é de suma importância para a sua filha Myrella, de 3 anos.

Para o futuro, Sara estima que além de melhores condições para sua filha viver a infância livremente, que o governo atue em diferentes frentes para assegurar uma rotina saudável para as crianças. “Que ela venha a ter muita sabedoria e inteligência nesse mundo de muita violência. Espero que ela venha a ter uma infância maravilhosa, pois está apenas começando”, finaliza.

A preocupação de Sara com a violência é algo que atravessa muitas mães da capital metropolitana do Rio de Janeiro. De acordo com levantamento do Instituto Fogo Cruzado, ao todo foram nove crianças baleadas no Grande Rio em 2021. Destas, três vieram a óbito. O estudo aponta ainda que em quase cinco anos, 103 crianças foram baleadas na mesma região. Destas, 62% foram atingidas em favelas.

O levantamento evidencia também que muitas crianças apresentam traumas psicológicos da violência armada. “Muito se fala em proteção das crianças, mas muito pouco se faz. Os dados mostram que elas estão sendo feridas, mortas, que têm problemas psicológicos, mas pouco ou nada é feito por aqueles que têm o dever constitucional de garantir um crescimento saudável e com direitos garantidos para estes pequenos cidadãos”, enfatiza a diretora do Instituto Fogo Cruzado, Cecília Olliveira.

Nessa premissa, garantir uma infância saudável perpassa antes pela garantia do direito à vida destas crianças. Além do acesso à uma educação que promova autonomia e proporcione seu crescimento de forma íntegra. Inclusive, para Érika Lemos, a educação pode ser uma ferramenta que contribui não apenas no sentido escolar das crianças, mas também na construção de suas próprias identidades e anseios. “A educação, seja ela formal (escolar), não-formal (espaços de formação não escolares, como bibliotecas e museus) e informal (familiar e contexto ambiental), são ferramentas indispensáveis para a construção do sujeito em sociedade. Eu acredito que promover a multiplicidade de experiências na formação de crianças e adolescentes, de favelas e periferias, é contribuir para um alargamento de leituras sobre si, sobre o outro e sobre o mundo em que vivemos. Viva as crianças!”, finaliza a pesquisadora.

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