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Quilombo urbano: identidade, resistência e memória negra

Texto: Gabrielle Araujo (gabrielle@observatoriodefavelas.org.br)
Arte Gráfica: Marcella Pizzolato (marcella@observatoriodefavelas.org.br)

Espaços promovem resgate da cultura negra através de políticas de acolhimento em centros urbanos

Sob uma perspectiva de ancestralidade e com protagonismo negro, os Quilombos configuram-se como uma importante ferramenta na manutenção da história do povo negro e também como espaços de acolhimento, resistência e identidade negra. Exemplo disso acontece em Niterói, no qual o Xica Manicongo, primeiro Quilombo Urbano do município, surge como um resgate da história e cultura da população negra e LGBTIA+.

Lançado no final de outubro deste ano, o nome do espaço não foi escolhido à toa. Ele carrega a história da primeira travesti da história do Brasil, Xica Manicongo, que viveu em Salvador no século XVI e é símbolo de resistência e luta para a comunidade LGBTQIA+. O projeto conta com a participação de quatro organismos sociais em sua concepção: o movimento Xica Manicongo, o Quilombo Alagbara, o Coletivo Transparente e a mandata da Vereadora Benny Briolly.

O cineasta e idealizador do Coletivo Transparente, Marcos Campello, comenta sobre como surgiu a iniciativa. “Veio da necessidade de amparo à população preta e LGBT. Reunimos a Mandata de Favela, da Vereadora Benny Briolly e três coletivos: o Alagbara,  formado por mulheres afroamericanas; o Xica Manicongo,  composto por travestis de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro; e o Coletivo TransParente,  formado por LGBTs que militam através da arte com foco na pauta transexual.”

O cineasta pontua ainda sobre o valor de aliar a arte nesse processo. “É importante para o resgate da memória preta e de tudo que foi imposto ao povo preto, além de impulsionar a arte preta de Niterói. O Quilombo pretende dar visibilidade a artistas pretos com produção de filmes,  peças, clipes e exposição de arte preta”, completa.

Ao encontro de Marcos, a assistente social, assessora parlamentar e integrante do Quilombo Alagbara, Nathália Carlos, pondera que para além da manutenção da memória preta na cidade, o Xica se propõe a ser um espaço de produção de conhecimento e ciência. “Ele nasce da necessidade de criarmos espaços seguros e de troca para nosso povo preto e nossa comunidade LGBTIA+. Por isso vai funcionar como espaço de resgate da história e cultura afro-brasileira e das pessoas travestis e transsexuais. Para isso, estamos desenvolvendo pesquisas em parceria com a UFF, teremos a execução de projetos sociais voltados para a população do entorno e estamos realizando eventos de arte e cultura”, elucida.

O Xica é localizado na Cantareira, região de Niterói marcada pela efervescência noturna e também por lutas sociais. “Nosso quilombo se soma à luta histórica do nosso povo preto nessa região que é uma pequena áfrica de Niterói. Se soma à Ocupação Mama África e tantas outras no entorno da Praça da Cantareira que têm tocado a luta por moradia em resistência à especulação imobiliária”, acrescenta Nathália.

A vereadora Benny Briolly, a quinta candidata mais bem votada no município, chegou com o desafio de amplificar o debate de raça, classe e gênero no município. Ela conta que o Xica é uma das possibilidades de implementar esse diálogo. “Niterói é a cidade que mais segrega pessoas em razão de sua cor. Essa cidade sorriso é marcada pela desigualdade  e fomentar um espaço como o Xica é mais que necessário.  A ideia do Quilombo é acolher uma população que sempre foi renegada pela sociedade, seja no que diz respeito à garantia de direitos, seja com relação a afetos. O objetivo é o espaço ser uma troca de aprendizados, cura, escuta e busca por autonomia em uma perspectiva africana de resgate da história, indo contra a lógica colonial que cerca a nossa cidade”, pontua.

Sobre os objetivos, Benny vai ao encontro de Marcos e Nathália e comenta sobre a necessidade de impactar Niterói através da política do acolhimento e também da identidade negra. “Beatriz Nascimento [Quilombola e intelectual negra] nos ensinou que quilombo é onde estamos e o que somos. Carregando o nome da primeira travesti africana a pisar no Brasil, a ideia é impactar o território e trazer mudança para nossa cidade”, finaliza.

Similar à Benny, a coordenadora financeira do Quilombo Xica Manicongo, Priscila Trindade, acredita que o valor social de se ter esse espaço de potencialidades em Niterói é poder romper com o véu do apagamento histórico que há muito tempo inviabiliza a cultura negra. “Partindo do ponto que há séculos a sabedoria preta, bem como nossas habilidades e características foram surrupiadas, fomentada pelas mãos e ganância branca, vejo no Quilombo Xica Manicongo a possibilidade de nos articularmos na cidade de Niterói e adjacências para dar cabo ao processo sistemático de apagamento das referências e memórias pretas. Nossa pedra angular de resgate da memória do nosso povo é Xica, quem lê, faça nota: Xica Manicongo, a primeira travesti preta que se tem registro no Brasil”, exclama.

Priscila vê ainda a possibilidade de fazer o resgate dessa memória através de diferentes frentes, entre elas através da culinária, aplicando o conceito de culinária afetiva, que consiste em promover afeto e uma rede de significados, potencialidades e cultura, através da gastronomia. “Sou uma das pessoas mais otimistas e contentes que eu conheço, características que em geral são motivadoras para que as confrarias brancas se ergam. No entanto, o que me conecta ao Quilombo são as dores e descontentamento que atravessam os corpos que aqui constroem, cada um à sua maneira. Sou preta de pela clara, que bebi e bebo dos privilégios de não ser retinta nesse país racista, ao mesmo tempo que não sou branca o suficiente para ter meu corpo respeitado e minha fala levada a sério. Sou estudante de Marketing, atuei em diversos órgãos do poder executivo e legislativo, movida sempre pela paixão de servir ao povo. O servir também se faz presente na minha paixão pela culinária, que é a maneira mais objetiva e genuína que encontrei para dizer ‘eu te amo’. Um dos projetos que pretendemos colocar de pé no Quilombo é o nosso café/restaurante, que para além de gerar fundos de sustento do espaço , possamos trabalhar em nossa cozinha-escola o conceito da ‘culinária afetiva’”, explica.

Para ela, a importância de existir nas cidades cada vez mais iniciativas como o Xica é uma questão de urgência. “De forma bem sucinta, acredito que nesse país, que não poupa  a crueldade sobre os corpos pretos, femininos e LGBTIA+,  tratar as dores, ressignificar as ‘verdades’ e a emancipação, mesmo que tardia, dos nossos corpos é questão de saúde pública e deve ser uma prioridade. Aquilombe-se!”, conclui.

O processo de reconhecimento de Quilombos ainda é burocrático e lento. Apenas com o Decreto nº 4887 do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi possível a regulamentação e demarcação das terras dos descendentes de quilombolas. Para a regularização, é preciso ainda passar pela Fundação Cultural Palmares e depois pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, o Incra. Porém, o direito ainda sofre com constantes ameaças e jogos de interesses. No estado do Rio de Janeiro, outros três Quilombos resistem à especulação imobiliária e à invisibilização da memória negra: Quilombo Pedra do Sal, é localizado no bairro da Saúde, região central; Quilombo Sacopã, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul; Quilombo do Camorim, na Estrada do Camorim, em Jacarepaguá, na Zona Oeste.

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